London Burning 2004
Curitiba se afirma como centro indie brasileiro
Por Luciano Vianna
Quando Black Francis chegou perto de Kim Deal, com quase uma hora e meia de show e relembrou os acordes de Planet of Sound com ela em pleno palco do Curitiba Pop Festival, faltavam apenas alguns minutos para os Pixies fecharem com chave de ouro o mais importante festival de música independente já realizado no Brasil. A música, que não estava no set list da apresentação e que entrou como um presente da banda para a ensandecida platéia brasileira, marcou bem a relação de carinho e satisfação marcada entre uma das maiores bandas do mundo e o público e a produção do evento.
Hospedados no Hotel Sheraton de Curitiba, os Pixies passaram quatro dias na cidade, passeando tranquilamente pela rua, assinando autógrafos, conversando com fãs, visitando lojinhas da cidade e, principalmente, dando uma amostra de civilidade enquanto popstars adorados por multidões em todo o mundo. Difícil imaginar Black Francis saindo para almoçar sozinho sem nenhuma segurança em Londres ou Nova York, principalmente nessas épocas de Pixiesmania, como acontecia freqüentemente em Curitiba. A cidade, por sinal, respirou música independente no segundo fim de semana de maio, quando, além do CPF, ainda viu seus principais palcos undergrounds serem recheados de bandas de todo o Brasil, em festivais como o Afterglow e o RG, que contou até mesmo com um show surpresa de Jupiter Maçã em sua formação original, mantendo o lugar lotado até as sete da manhã.
Mas vamos falar do Curitiba Pop Festival. Depois de toda a confusão ocasionada com os erros na venda de ingressos, da mudança de local da Ópera de Arame para a Pedreira Paulo Leminski (que possibilitou à produção aumentar em 5 mil a carga de ingressos para o festival), o evento acabou ocorrendo na mais pura tranquilidade, um verdadeiro congresso indie, onde ícones do rock alternativo de todo o país puderam se encontrar para colocar o papo em dia. Bandas mil cercavam veteranos como Kid Vinil (Brasil 2000) e Carlos Eduardo Miranda (Trama Virtual) tentando uma atenção para seu CD, enquanto jornalistas de todo o Brasil circulavam com desenvoltura pela área, alguns até tirando fotos com fãs mais afoitos, como Lúcio Ribeiro (Folha Online) e outros subindo no palco para reverenciar seus ídolos, como Humberto Finatti (Dynamite) durante o show do Teenage Fanclub.
Fora o frio intenso, amplificado pelas condições naturais da Pedreira, o som pouco potente para o tamanho do lugar e o fato de que a cerca montada para diferenciar os compradores dos primeiros três mil ingressos dos outros mortais não ter durado muito em nenhum dos dois dias, a produção do Curitiba Pop Festival pode se orgulhar de ter conseguido fazer um evento de dar inveja a qualquer festival gringo nas mesmas proporções.
No primeiro dia, o grande destaque nacional foi a falta de boas bandas. É impressionante como se privilegiou a escalação nacional do segundo dia em detrimento do primeiro. Ao lado de bandas do terceiro escalão independente nacional como Iris, Kingstone e No Milk Today, o Sonic Junior se destacou, simplesmente por fazer algo que pudesse animar por alguns momentos o público de 6 mil pessoas que lotou apenas a terça parte da pedreira. Depois do grupo alagoano, o festival começou de verdade com os suecos do Hells on Whell, que mostraram uma pálida tentativa de soarem pesados como o The Hellacopters, mas que no máximo conseguiam soar pop como um Backyard Babies. Depois da decepção sueca, a redenção com o Teenage Fanclub. Os escoceses, mesmo quando fazem um show meia boca como foi o do CPF ainda conseguem soar maravilhosamente bem aos ouvidos. Bem a vontade no palco, depois de uma temporada de três shows lotados em São Paulo, o Teenage passeou por todas as fases de seu extenso repertório, com músicas como Everything Flows, de seu disco de estréia, Starsign, do seu segundo e melhor disco e muitos outros clássicos do power pop, deixando todos da platéia com um sorriso do tamanho do mundo e ajudando a esquentar a geladíssima madrugada curitibana.
O segundo dia de CPF começou mais quente, ainda com um tímido sol aparecendo e a curitibana Tarja Preta abrindo os trabalhos tocando para quase ninguém no meio da tarde de sábado, mesmo serviço também feito pela local Poléxia. Primeira grande atração indie brasileira, o Grenade foi prejudicado pelo horário, mas mostrou seu bom rock com ecos de Neil Young para um pequeno, mas vibrante, público. Logo depois o Excelsior aproveitou bem o começo de noite mostrando um manancial de canções suaves recheadas de guitarras fortes e climas etéreos, fazendo o primeiro de muitos shows bons na noite. Logo depois os cariocas do Autoramas fizeram seu habitual show competente e animado. O mesmo pode-se dizer dos ecos punks do Pelebroi Não Sei, que tocou a seguir e conseguiu agitar tanto o público que a organização foi obrigada a retirar as grades que separavam os compradores do primeiro lote de ingressos do resto do público. Capitaneado pela simpática Vanessa, o Ludov mostrou o porque de ser considerado por muitos como a bola da vez do poprock nacional, com boas canções e músicos seguros. Comemorando seus quinze anos de carreira, a prata da casa Relespública jogou pra galera, fazendo talvez o melhor show nacional do festival, dando uma passada em todo o seu repertório e mostrando faixas de seu excelente novo disco.
Diretamente de Recife e destoando bastante do resto das atrações, o Mombojó foi prejudicado pela apatia do público, que não estava muito interessado na releitura do mangue beat feita pelo grupo. Mas tudo mudou com a entrada no palco de três lendas do rock gaúcho: Flu, Wander Wildner e Frank Jorge, que tocaram alguns clássicos de suas ex-bandas, respectivamente De Falla, Replicantes e Graforréia Xilarmônica, levantando a galera para o show do Pin Ups, última atração nacional da noite. Mais por culpa da excitação do público que esperava ansioso o show do Pixies que por erros de seus integrantes, o show do Pin Ups agradou a poucos que tiveram a paciência de prestar atenção no grupo, um dos ícones do rock alternativo brasileiro do começo dos anos 90 e que se reunia novamente apenas para a apresentação no CPF.
Encerrado o Pin Ups, depois de meia hora de espera, aquilo que parecia impossível se realiza bem diante de nossos olhos: o Pixies adentra o palco do CPF e, durante quase uma hora e meia mostra, em 28 músicas, que o tempo não passou nadinha para eles, que ainda estávamos nos anos 90, principalmente pela seleção do repertório, quase todo dos dois primeiros anos do grupo. Black Francis rechonchudo, Kim Deal ainda gordinha, Joey Santiago de óculos e David Lovering com uma cabeleira brega, se não pareciam muito com a imagem clássica dos áureos tempos do grupo, mostraram que, pelo menos em matéria de som, não devem nada ao passado. Um show excepcional para encerrar um festival inesquecível.
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