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Com a quase falência do Orbital, o London Burning Festival ficou sem casa fixa em SP. Propostas de lugares e cidades dispostas a receber a melhor festa indie do Brasil, e-mails para lucianovianna@londonburning.com.br |
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| Janeiro 2001 | ||||||||||
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Velha Debaixo da Cama
MUCHAS LETRAS NA CUCA-RACHA POUCAS PÁGINAS NA AREIA DA PLAYA MISÉRIA S/A REGULA A CENA SKATALITE DO GOGÓ U-HU-HU (um sol uruguaio e uma assinatura ininteligível) O Evangelho passou! O Evangelho! O Evangelho! ...40oC, fumaça e fogo, gritos, grunhidos, roquenespañol, jornalistas sub-empregados e um produtor derrubando cerveja quente pelos móveis. Não se encolha diante do clichê: a definição disso é Inferno, ou sua sucursal da São Clemente. Todo mundo é uma boa pessoa até que te passe a perna numa grana ou numa foda, uma constatação tão tardia quanto a sua adolescência. Mas nada tem a ver com você. Nem com a festa. É só uma frase que ouvi por acaso e não pude identificar de onde vinha. Não me intrigou, qualquer idiota pode dizer uma coisa cínica de vez em quando, especialmente num porre infernal. Cinismo é uma prepotência paralisante nos casos mais biliosos. Mas nem todo cínico é um rancoroso prepotente: o que tem senso de humor ainda consegue enganar um arzinho de maturidade desiludida afetada, mesmo sem ter vivido porra nenhuma. Traça perfis, adjetiva pra baixo e em excesso, escarnece, baixa as venezianas e esperar (sem incentivar ou acreditar) que alguém, outra pessoa, faça alguma coisa, dorme noite antes de ver dia. O cínico é, no caso mais grave, o underground man do Dostoiévski. Simplificando ao máximo, vira gente enjoadinha, que não faz muita coisa. Em outro extremo, estão os Amor Fati nietzschianos: por mais errada que pareça uma idéia original num mercado de velhacos que não assumem riscos, transformam erro em acerto. Sendo dramática, o roque precisa mais destes agora do que dos cínico-pessimistas. Benga minueto. Liguei o Winamp e Cadê Teu Suin dos Hermanos engatou num loop, dono de si e insistente sem outro motivo pra soar senão que tem vida própria e não pára. Vamos a la playa. 05.01.02 They say there is no place for little monkey in this town... king of the bongo... king of the bongo... Os Netunos são uma banda de surf music numa cidade ensolarada com belas praias e mulheres de topless. Não podia ser melhor, certo? Bem, podia. O Rio de Janeiro é abençoado pela natureza e, segundo informa o www.uol.com.br (com fotos), o verão carioca tem caminhado sem a parte de cima do biquíni. Mas a cidade maravilhosa possui apenas duas biroscas bem localizadas que alugam regularmente seu espaço para bandas de roque desconhecidas do grande público e isso deixa algumas pessoas chateadas (digamos que deixa uma fatia de público esquecida bem chateada). As biroscas seriam o Kashanga, em Botafogo, e a Casa Amarela, em Copacabana. Há também uma lanchonete na Barra da Tijuca que cede espaço para shows no meio da semana, no fim do dia (mas a Barra da Tijuca não conta, peregrino). Grande parte do público dessas bandas não pega o ônibus até a Zona Norte para ver um show, senão teria ainda mais uma ou duas opções. Diante de tamanha indigência e na seca por um showzim, os Netunos decidiram marcar uma apresentação na praia de Ipanema, na altura do Posto 9. Sua iniciativa ganhou matéria de página inteira com foto no Rio Show do Globo (assinada pelo Calbuque, do Rio Fanzine) na Sexta-feira antes do show, publicidade o bastante para um evento sem patrocinador nem produção. Cheguei cedo sob sol e 36oC no marcador eletrônico, estendi a canga estrategicamente ao lado da barraca de cerveja do Simba. O Posto 9 é um arroto de Skol na boca da Zona Sul a R$1,50 (R$2,00 se você estiver muito branco), um alemão lambuzado de filtro solar 30 no calçadão-Babel, areia fofa e água de Jacuzzi. O fotógrafo trajando camisa estilo Magnum carregava sua Sony digital como se levasse uma Yashica descartável e derramava cerva em mim. Abandonou a câmera sobre a canga molhada e correu para o mar, onde, qual meia em máquina de lavar roupa, era cuspido com violência de um lado para o outro na água. Uma morena com poderes de Moisés abre caminho entre barracas e corpos e vem na minha direção; é repórter de um caderno de Informática e veio assistir ao show à caráter: De biquíni e um bronzeado que lhe garante cerveja a preço carioca. Não demorou e estávamos falando da maré baixa em que começou o ano. Eu comentei que tava bolada com a transferência do Rio Fanzine das tradicionais duas páginas de destaque do Segundo Caderno para o Rio Show, com menos espaço. Ela emendou que esta semana rolaram 70 demissões no JB e que O Dia colocou na rua uns 15 que folgaram durante o Reveillon e ainda temia que mais uma barca carregasse outros 10 ou 15 na semana seguinte, quando retornassem de suas folgas. Disse algo sobre a barca do Globo também, que eu tratei de apagar da memória porque àquela altura do championship meu humor já tava se alterando demais pra quem tinha vindo curtir surf music e praia. Deitamos na areia e bebemos cerveja, nadamos nos coliformes fecais de toda a Zonal Sul ignorando a conversa de velhotas sobre como o Brasil era um país mais rico durante a ditadura. Pelo menos hoje não ia mais pensar em chabú. Ok, a resolução durou pouco. Luciano Vianna estendeu a canga e contou que o Orbital, em São Paulo, não quer mais fazer a festa London Burning e o show dos Netunos e Casino em SP no Sábado seguinte estava, portanto, cancelado. De volta ao mood deprê, fiquei aguardando um show na praia realizado sem amplificadores, só boa vontade e cerveja. Às 18h, já estava reunido em frente ao Posto 9 um mix dos habitues de shows dos Netunos e banhistas curiosos que não tinham idéia do que aqueles quatro caras de camisa florida iam tocar. Como os Netunos não têm o seu Alex Werner (produtor sem o qual Los Hermanos talvez não conseguissem amarrar os cadarços dos tênis quando começaram), o show não tinha estrutura de show. E a idéia era essa mesmo, algo como um luau. Violões e baixo acústico, vocal aos berros ajudado pelo público sentado na areia em volta da banda. O bongô era mais fácil de ouvir, mesmo sem p.a. A surf music brigando com o barulho do mar e dos playboys conversando, dos gringos na calçada comprando paninhos-de-bunda e narguilês e colarzinhos de conta, com a própria platéia que gritava e bebia (claro, roque é roque, não é João Gilberto, psiushhhh, shhhh). Um vendedor de queijo coalho parado ao lado de JP, viola-solo dos Netunos, erguia dois espetos oferecendo seu produto. Parecia um segurança, sua arma era o queijo coalho e ele não hesitaria em usá-la, freaks. Simba e outros ambulantes pediam a Clarah (que escreve sobre o mesmo show na LB) em casamento. Mr. Chuckles, o cachorro do Luciano Vianna, se espreguiçava. Netunos tocavam o mais alto que conseguiam desplugados. O roque é fora de série. Peguei um biscoito Globo (Grobo) salgado com o ambulante e a cada mordida no polvilho eu deixava de ouvir completamente a música que os Netunos faziam logo em frente. Sim, o som deles estava baixo. Estava muito baixo. JP gritava a melodia e seus solos com a boca mesmo; era o jeito. Mesmo sem p.a. nem estrutura, mesmo que 90% do público, entre os banhistas desavisados e os fãs com camisas floridas que sabiam todas as letras, não fossem exatamente fãs de surf music, Netunos é melhor que mais da metade do que reprisa nas FMs mediante jabá. Mas ficar falando nisso é até ingenuidade. 06.01.02 3h Nosso Magnum é um cara bom, o tipo de pessoa que decide dar um churrasco dentro do apartamento às 22h e chama quem estiver ouvindo. Achei aquilo uma boa idéia. Uma hora depois cheguei no local, onde ligaram uma churrasqueira elétrica, transformando todo o ambiente numa sauna a vapor, uma versão do inferno dentro de um condomínio; o aparelho de som parecia apto a reproduzir apenas CDs de rock en espanol e Mutantes a temperatura estava boa pra Lúcifer da floresta, Ave Lúcifer quando a cerveja gelou e uma bebida vermelha doce, sem gosto de álcool começou a ser repassada pelo caldeirão suarento da sala, falaram bem da Rita Lee que ronronava na caixa de som e mal da Rita Leennon e McCartney, gritaram contra os mailings das gravadoras, a Universal que, minutos após o anúncio da morte da cantora, já rastreava seus empregados por telefone marcando uma reunião pro dia seguinte (um Domingo) sobre lançamento de CD póstumo, protestaram contra calotes e atrasos de pagamento, o sujeito da Rock Press berrou que todos os músicos presentes eram absolutamente geniais e começa uma discussão porque o som do Kashanga e o da Casa Amarela não comporta tanta genialidade então é melhor que se morra engasgado nela, Nelson Motta foi xingado de Werther algumas vezes após breve leitura de trechos de seu livro sobre Nova Iorque ("Quem é alfabetizado o suficiente para ler este livro sabe da importância dos museus tal e tal...", caralho) e lá pelas 3h da manhã o síndico indignou-se em sua severa autoridade e acabou, finalmente, com a confraternização. 07.01.02 Abri meu bloquinho procurando qualquer informação sobre o show ou a festa que me ajudasse a reconstruir o luau dos Netunos ou mesmo o churrasco mas isso não é mais necessário agora, duas laudas e meia depois. Encontrei algo interessante, no entanto: a mensagem assinada pelo Magnum que acabei usando como epígrafe da coluna, que volta ao LB tão desastrada e vaga quanto a "cena" de música de que ainda falam em tablóide impresso em papel-jornal e websites com nomes gringos. Miséria S/A. |
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