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Março 2002  
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Olhar de Cachorro

por João Paulo Cuenca


Pink Floyd - Legião Urbana do Mundo

Um amigo meu sempre se referiu ao Pink Floyd como o Legião Urbana do mundo. A comparação é esdrúxula, mas faz algum sentido. As duas bandas têm em comum um séqüito de fãs interminável (pra não dizer ranheta) e a admiração incondicional de uma legião gigantesca de neófitos - essas pessoas estranhamente normais que não colecionam discos compulsivamente e só ouvem música pelo rádio ou TV. Na casa de qualquer família típica de classe média, há pelo menos um disco da banda de Cambridge. Pode procurar aí, nas gavetas perdidas da sua mãe ou do seu irmão mais velho (ou novo, tanto faz). Ao lado de nomes como Beatles, Stones, Michael Jackson e Madonna, o Pink Floyd está no imaginário popular do mundo. E apresentando sonoridades aparentemente inacessíveis ao povão de qualquer lugar.

E independente da popularidade na sua casa, em Cascadura ou na Casa da Matriz, o Pink Floyd é fundamental. Desde o início, psicodélico-espacial, até o fim, pretensioso e perdido entre auto-referências, a banda, mesmo carregando um dos piores nomes da história da música pop, imprimiu sua originalidade ao mercado - coisa cada vez mais rara nesse planeta. Classicoso, eletrônico, futurista, ácido, visual, deprê, grandioso, atmosférico... E a crítica musical sempre vai precisar regurgitar algum adjetivo para classificar a sonoridade dos mais de trinta anos de excessos, altos, baixos e milhões de discos vendidos de um dos maiores fenômenos de massa do século vinte.

O amigo leitor pode ter motivo pra não gostar - afinal, hoje não é nada cool admitir que se gosta de Pink Floyd. É cafona e pega mal com a mulherada indie. Mas não dá pra contestar a importância dos caras. Entre a inovação e a ironia, o Pink Floyd inventou a sua própria versão de música pop. E, durante algum tempo, o mundo inteiro viajou junto. Cartas pra redação, if you wish.

Navalha na Carne

Pois é. No dia 09/03 a "In the Flash World Tour" chegou ao Brasil. Depois do Rio, vai a Porto Alegre (12) e São Paulo (14). A apresentação do ex-líder, principal-compositor e baixista-enganador do Pink Floyd, Roger Waters, teve as prometidas mais de três horas de duração, projeção de vídeos, cenários, efeitos-especiais e som quadrafônico "inserindo a audiência num hyperworld tridimensional". O setlist foi obviamente baseado nas músicas do Pink Floyd, com algumas poucas canções da carreira solo meia-boca de Waters. O circo ainda vai passar por lugares como Venezuela, México, Japão, Austrália, India, Thailandia e, antes de subir pra europa, faz escala em Beirute (!). E eu aposto que a maioria dos quarenta e cinco shows vai lotar como aconteceu aqui no Rio.

Trinta e cinco mil ingressos vendidos, som perfeito na Praça da Apoteose (it's a miracle) e uma entrada tumultuada pra quem chegou em cima da hora marcaram a entrada da Clear Channel no Brasil. A produtora multinacional está entrando com força total no país e (acabaram de me contar) promete, entre outros, um show do U2 por aqui em breve.

Botafogo x Santos

Um show desses acontece muito mais na cabeça das pessoas do que em tempo real - não se dá no presente. A comunicação entre o artista e o seu público não é direta, não é espontânea. Não existe descoberta. O muro entre a banda e seu público, tão cantado pelo próprio Waters, é gigantesco. E eu não me refiro ao aparato técnico ou ao tamanho do palco. Eu estou falando de anacronia. É como uma torcida que vai ao estádio para lembrar craques do passado. Os jogadores atuais são apenas fantasmas vestindo aquela camisa que, outrora, chegou a carregar tanto poder. O craque é atemporal, o gol de placa é atemporal, uma obra-prima é atemporal - viverá eternamente enquanto alguém se lembrar. Mas tentar reproduzir essa magia, fora do seu contexto original, é fantasmagórico. Roger Waters, que entrou sob fogos e luzes, tocando seu baixo numa plataforma, era mais um fantasma de si mesmo. Sua presença, apenas um detalhe que ajudava a efervescer a memória afetiva da platéia.

Eu acredito que a imortalidade de qualquer canção está muito mais presente entre os sulcos de um LP do que num show póstumo. Roger Waters não lança um disco solo desde 1992 (Amused to Death). Dez anos depois de lançar qualquer trabalho autoral, onde está meu rock'n roll numa apresentação ao vivo? Pra onde foi a contundência paranóica das composições geniais de Waters? Está diluída, num ponto muito longe dali, nas lembranças de cada coroa barrigudo, nas trepadas dos nossos pais na década de 70, na minha adolescência deslocada, na fumaça queimada vagarosamente pelos bagulhos que ajudam a iluminar a platéia... Virou fumaça, que sobe pelos pulmões e some pelo ar, moléculas sendo desgrudadas, cada vez mais leve, cada vez menos retumbante, cada vez menos intensa...

Até se perder numa corrente de ar qualquer.

Dois Sets

A apresentação foi dividida em dois sets de cerca de uma hora e meia, separados por um intervalo de meia-hora. Durante toda a turnê não há nenhuma alteração na ordem das músicas ou do bis. A estrutura do show, com projeções em 70 mm num telão gigantesco e sons em playback que surgem por todos os lados (além dos PA's frontais, existem mais cinco ao redor da arena), não permite nenhuma variação ou improviso. Tudo foi tecnicamente correto - tirando uma falha vergonhosa no microfone do sax em Shine on your Crazy Diamond. Durante a maior parte do show, os dez músicos se comportaram como se estivessem numa festa de quinze anos.

A primeira parte da apresentação contou com alguns blocos "temáticos" para cada disco, em ordem cronológica, rumo ao passado. Começou com o momento The Wall (1979), passou pelo momento Animals (1977, disparado o melhor do show, com uma performance de Dogs completa, inclusive com latidos em surround) e culminou com a leitura da quase totalidade do disco Wish You Were Here (1975). A música título, que todo mundo, gostando ou não, sabe de cor, foi assassinada sem piedade pela banda de Waters. Os guitarristas, inclusive o tão falado Snowy White (ex-Thin Lizzy), mostraram que ainda precisam calejar muito os dedos para chegarem a uma performance digna do dedo mínimo do guitarrista do Pink Floyd, David Gilmour.

Depois do intervalo, a banda voltou tocou mais alguns clássicos - começaram com a psicodélica Set the Controls for the Heart of the Sun, de Sarceful of Secrets (1968), e mandaram ver um bloco Dark Side of the Moon (1973), com direito a patricinhas na platéia dançando Money em 7/4. Aliás, quatro também era o preço que os ambulantes estavam cobrando por uma lata de cerveja Kaiser - patrocinadora do evento.

Panteão

Algumas músicas solo de Waters ainda foram executadas, inclusive a belíssima It's a Miracle, mas nessa altura do campeonato eu já estava com muita sede - três horas de show em pé com cerveja cara e difícil de encontrar é dureza. Mas o público resistiu muito bem. E só por provar que uma platéia latina pode ouvir com atenção mais de três horas de música climática e psicodélica, não-exatamente-dançante, lotando uma arena com 35 mil cabeças, Mr. Waters merece entrar para o "panteão dos deuses do olimpo musical", como diria um outro grande amigo.

E gente de todo o tipo foi ver e adorou: velhos, crianças, marombas, pais, filhos, nerds, surfistas, bancários, colecionadores de borboleta... Só não tinha indie.

O que corrobora a tese do "Legião Urbana do Mundo".

O Solo

Para alguma meia-dúzia de pessoas um dos momentos mais esperados do show foi a canção Confortably Numb, do whisky-duplo The Wall.

Não por causa da música em si - cadênciada e morna, é um dos piores momentos do disco. O quente é o solo. O solo de guitarra no final da música, que chega a ter cinco minutos nos shows do Pink Floyd, é uma composicão a parte - grandioso e inspirado, parte de uma melodia simples para, num crescendo rechado de bends arrepiantes, te lamber os ossos através dos ouvidos.

Quem quiser ouvir, tem no audiogalaxy: http://www.audiogalaxy.com/list/song.php?&g=17836519

O solo começa lá pelo minuto 4:30 - o que rola antes não importa.

Infelizmente os guitarristas presentes no palco de Waters não tocaram o solo que eu conheço. Mandaram um improviso muito vagabundo que sequer lembrou a obra-prima do velhote Gilmour.

Vou deixar claro: eu não costumo gostar de discos de guitarrista - não suporto onanismo com seis cordas. Mas isso aí é outro papo e por causa desse solo (infelizmente pra uns, felizmente pra mim) comecei a tocar guitarra. Com dezesseis anos gravei uma fita de 60 minutos com várias versões do solo intercaladas. Mas nunca tentei tirar o solo inteiro.

Mais por incompetência do que por respeito, com certeza. Como sempre.

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