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Com a quase falência do Orbital, o London Burning Festival ficou sem casa fixa em SP. Propostas de lugares e cidades dispostas a receber a melhor festa indie do Brasil, e-mails para lucianovianna@londonburning.com.br |
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| Janeiro 2001 | ||||||||||
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Eu Sou Mais Indie Que Você
QUERO SER KEVIN SHIELDS Veneno, noise e muita diversão nessa história de Eduardo Palandi (pfff) ------------------------------------- capítulo 1 "- Não é possível. NÃO É POSSÍVEL!" - gritou Daniel, antes de jogar sua guitarra no chão. "- A gente está aqui há três horas e não acertamos uma música. Como a gente vai tocar no Orbital sábado?" O desespero de Daniel fazia sentido. Era quinta-feira e o Blemish lutava com todas as forças para se acertar. A tranqüilidade dos tempos de "Silverbox song" ia longe e a banda passava por vários problemas. Pra piorar, a parceria com Gustavo "Mini" Bittencourt em "Touch me I wanna be silverboxed" poderia ser mal recebida pela crítica. A banda corria o risco de acabar dois dias antes de abrir pra Terris e Beulah, naquele London Burning Festival que seria o show de suas vidas. O britpop brasileiro estava ameaçado. "- Mais uma vez, agora vai!" - gritou Ivan, antes de começar a tocar "Optimistic", do Radiohead, sozinho em seu baixo. Mas faltava aquele feeling, aquele tesão de começo de banda. No final do dia, o produtor, empresário da banda e conselheiro sentimental Luciano Vianna passou pelo estúdio para ver como seus garotos estavam indo. "Tenho o maior orgulho dessa banda", pensou Luciano. "'Touch me I wanna be silverboxed' vai ser o compacto da semana do NME e vai ofuscar o novo do Coldplay. Não tem porque fugir disso." No entanto, não era a banda que gravaria o compacto da semana do NME que ele encontrou ensaiando. Havia uma troca de palavras sem decoro entre os membros do Blemish, o filho pródigo da London Burning. Não faltaram gritos de "canalha", "patife", "indie" e "vendido", além de termos mais pesados. No final, o vocalista Tito disse a Luciano: "o Blemish acabou". Luciano fez com a cabeça que não, chamou a banda pra tomar umas no boteco ao lado do estúdio, pediu cinco cervejas (pouco importa a marca, não cabe aqui fazer merchandising) e olhou o quarteto fixamente: "- Gente, por favor. Cadê aquela banda visceral que me faz dançar sem parar?" "- Crise, cara. Não temos mais o que fazer juntos." - disse Daniel, sem meias-palavras, engolindo a cerveja ruidosamente. "- Esses caras só querem saber de enrolar. Vou fazer o teste pra Bidê ou Balde agora!" "- Que Bidê ou Balde o quê, Daniel! Você não vai sair do Blemish porra nenhuma!" "- Tarde demais. Já comprei meu terninho e meus sapatos sociais." "- Devolve na loja. Diz que ficou pequeno!" "- Acabou, Luciano. Eu e o Douglas Dickel vamos pra Goiânia montar um projeto eletrônico com vocal feminino e trabalhar na área de relações públicas da Monstro. E vamos produzir o Prot(o)." - disse Tito, matando seu copo de cerveja. "- Não é possível. NÃO É POSSÍVEL!" - e Luciano deu um tapa na mesa, deixou uma nota de 10 e foi embora. Um a um, os Blemishes foram saindo depois, até ficar apenas Daniel. Sentado naquele bar de São Paulo, ele via o sonho de sua guitar band desmoronar. No outro dia era passar no estúdio, pegar os instrumentos, voltar pra São José dos Campos. E assim Daniel acordou cedo no dia seguinte, tomou quatro canecas de café e foi buscar sua guitarra no estúdio. Chegando lá, começou a lembrar da discussão do dia anterior. Essas coisas dóem. Sentou-se e tentou tirar "St. Louis", do Blur, quando um dos amplificadores caiu. Ao levantá-lo, viu uma portinhola na parede, atrás de onde o amplificador ficava. A curiosidade tomou conta de si: não resistiu e abriu-a. Dentro havia uma luz rosa, que lhe trazia uma sensação de déja vu. A luz o hipnotizava, e assim Daniel adentrou a portinhola e foi até a luz. capítulo 2 Quando estava bem perto da luz rosa, Daniel caiu, desmaiado. Ao acordar, ouvia um barulho ensurdecedor: uma distorção contínua, que não lhe deixava outra escolha a não ser tapar os ouvidos com as mãos, para não perder a audição. Tudo era cor-de-rosa, e havia várias vias, sem nenhuma indicação do que poderia ser. Onde Daniel estaria? Olhou para o relógio e eram duas da tarde em ponto, quatro horas a mais do que quando estava no estúdio. Andou por vários lugares, sem rumo, enquanto procurava descobrir onde ouvira aquela distorção. Até que, num estalo, pensou: "Meu deus! A capa rosa, a distorção... isso é o Loveless, do My Bloody Valentine!", e arrepiou-se. Seguindo por uma via dupla, pode ver, através de duas janelas redondas, algumas imagens que faziam sentido. Viu uma mulher, de quase 40 anos e um nariz marcante. E ouviu-a dizer "Bye, Kevin", no que ouviu, num volume ainda mais alto, a resposta: "Bye, Bilinda". Kevin Shields e Bilinda Butcher, o casal 20 do noise britânico? Sentiu uma colisão. "- Não, não é possível: é um beijo dos dois!", e Daniel sentiu seu coração disparar. Assustado, correu pra longe dos olhos de Kevin, até chegar a um ponto onde a distorção era insuportável e onde via guitarras, pedais e amplificadores por todos os lados. Ficou lá, sentado, esperando tudo passar, até que desmaiou novamente. Quando acordou, estava em frente à Velvet, próximo à Galeria do Rock, em São Paulo. Olhou no relógio: exatamente 10 horas, 48 minutos e 38 segundos daquela sexta-feira. Não entendia o que tinha acontecido. Entrou na Velvet, cumprimentou os presentes, levou um bootleg do Kula Shaker e tudo do My Bloody Valentine, pagou e saiu, atormentado. De metrô, voltou ao estúdio. Havia uma mancha rosa no chão. Mas Daniel não podia ter voltado em pior hora: seus ex-companheiros, Luís Fernando, Tito e Ivan, estavam lá, e uma nova discussão era iminente. No entanto, algo o tomou de repente: plugou a guitarra num amplificador e falou, assustado: "- Gente, vejam isso, eu acabei de compor." - e tocou um riff. Um riff, não: O RIFF. Era algo sensacional, cheio de sentimentos e noise, e era apenas uma frase instrumental! Seus ex-companheiros de Blemish ficaram atônitos: Luís Fernando, que passou a noite querendo quebrar as baquetas na cabeça de alguém, foi à bateria e começou a acompanhar. Não demorou muito e Ivan e Tito estavam tocando junto com os dois. A letra surgiu em questão de minutos. Depois de seis ensaios consecutivos, todos frutíferos, perceberam que tinham algo poderoso nas mãos. Daniel então puxou mais oito riffs maravilhosos, e o Blemish ficou ensaiando até as 11 da noite. Não sem antes ligar para o patrão: "- Jornal do Brasil, boa noite." "- Luciano?" "- É. Quem é, Daniel? Bicho, por favor, fala com o pessoal da banda, tudo não pode acabar assim..." "- Não vamos acabar! Cara, cara, cara, escuta isso!" - e Daniel colocou a fita com a primeira canção surgida naquela tarde. Depois que a música terminou, completou: "- E aí Luciano, ficou legal, né?" "- Legal? Bicho, tá muito do caralho. É a música mais perfeita que eu já ouvi na vida. Isso é Pixies. Não, é REM. Não, não, caramba! É b-side do Sigur Rós! Putz, vocês estão do caralho!" "- Fizemos nove músicas hoje. Amanhã vai ser o début, no London Burning Festival." "- Bicho, grava pelo menos 200 cd-rs pra vender amanhã. Garanto que vai vender tudo e ainda vai ter gente querendo!" "- Não dá tempo de fazer 200, Luciano." "- Ah, faz o quando vocês puderem! Caralho bicho, mal entrei no JB e agora vou ser empresário do novo Strokes!" Daniel emudeceu. Depois de alguns instantes, perguntou: "- Novo Strokes? Que história é essa?" "- É, ué. Agora sim, achamos the next big thing do rock and roll!" ------------- capítulo 3 No outro dia, Luciano Vianna bem que tentou colocar o Blemish como headliner do London Burning Festival. Mas os gringos chiaram, e assim a escalação foi a mesma: Blemish abre, Terris vem depois, Beulah fecha a noite. No backstage improvisado na cozinha do Orbital, o comentário era de que até o Márcio Jorge ia rebolar feliz com as novas composições. E assim, às dez e meia da noite, um orgulhoso Luciano Vianna pegava o microfone e anunciava: "- Com vocês, o casamento perfeito de melodia, timing, distorção e visceralidade: Blemish!" E o show começou. Em onze músicas, a banda calou a boca de todos os seus críticos. A platéia assistia, embasbacada, àquela seqüência de canções com riffs maravilhosos, refrãos marcantes, muito punch na cozinha e carisma dos meninos. Quarenta e oito minutos e trinta e oito segundos depois do começo do show, tudo acabava. O público aplaudiu por cerca de dez minutos, e logo depois da salva de palmas, formou-se uma fila para comprar o novo disco do Blemish, composto pelas nove novas canções e duas velhas conhecidas: a instrumental "Quero ser cool" e sua versão com letra, "Álvaro song". As cento e noventa e nove cópias foram vendidas, e outras oitenta e oito pessoas deixaram seus nomes e pagaram antecipado pelas cópias. Terris e Beulah quem? José Flávio Júnior foi o crítico que melhor definiu a catarse promovida pelo Blemish, em resenha publicada dois dias depois: "Goiabices à parte, o Blemish fez um show memorável no London Burning Festival do último sábado, em São Paulo. O guitarrista Daniel parecia incorporar Josh Romme, o mito do Kyuss, enquanto a banda apresentava um conjunto de canções que credencia seu novo disco a figurar entre as grandes obras do rock and roll, como o Álbum Branco, Blues for the red sun e Guerrilla." E a banda entrou novamente em estúdio, para gravar mais dezessete canções. No fim do dia, Luís Fernando, Ivan e Tito apertaram Daniel contra a parede: "- Daniel, me conta uma coisa: de onde você tirou inspiração pra fazer essas músicas?" "- Caras, eu preciso mostrar a vocês." - afastou o amplificador e mostrou a portinhola. Pediu pra que todos entrassem, entrou em seguida e fechou a mesma. Num instante, todos foram sugados e acordaram num mundo com uma luz rosa e uma distorção insuportável. O estranho mundo da atividade cerebral de Kevin Shields. Daniel levou seus companheiros de banda para um passeio na mente do perturbado guitarrista, mostrando-lhes cada centímetro do local. Puderam ver Kevin em seu quarto, contemplando seus discos de mod e sua coleção de vídeos eróticos. No final, levou-os à sala das guitarras, onde o noise era maior. Todos sentiam uma inspiração e uma paz interior, como se tivessem fumado todo o estoque de maconha da cena indie brasiliense. E depois de quarenta e oito minutos e trinta e oito segundos de delírios cerebrais alheios, voltaram para a porta da Velvet, onde compraram a discografia do My Bloody Valentine e foram embora. No estúdio, quatro manchas cor-de-rosa surgiram no chão. Uma semana e meia depois, um telefonema foi dado: "- Jornal do Brasil, bom dia." "- Bom dia. Por favor, eu poderia falar com o Luciano Vianna?" "- Ele mesmo. Quem é?" "- Aqui é o Kid, cara." "- Aaaaah... e aí, bicho? Tudo bem?" "- Porra, tu tem uma banda e tanto no teu cast, hein? Não quer vender o passe deles pra Trama?" "- Eu bem que gostaria, mas..." "- Mas?" "- Mas..." "- Mas mas mas o quê, Luciano?" "- Acabei de vendê-los pra Parlophone, bicho. Eles vão ser lançados no Reino Unido!" ------------------ capítulo 4 Dito e feito. Um mês depois, "Touch me I wanna be silverboxed", primeiro single do disco "How to be good with the journalists", era eleito "Single Of The Week" pelo New Musical Express. A revista Q se precipitou e colocou uma fotomontagem do Blemish pisoteando os Strokes em sua capa, além da seguinte chamada: "Tudo o que Rubens Barrichello não fez na Ferrari o Blemish vai fazer no meio musical". "Touch me I'm silverboxed" foi direto para o primeiro lugar das paradas de singles da Record Retailer e, quando lançado nos EUA, fez o mesmo na Billboard. No Brasil, num fato sem precedentes, a EMI lançou o single, que era vendido pelos lojistas a preço de álbum completo, mesmo tendo apenas três faixas, e o disco alcançou o primeiro lugar nas paradas informais. Quando "How to be good with the journalists" saiu, o Blemish já era unanimidade. Aclamado em massa pelos mesmos críticos que achavam ruim que cantassem em inglês, pelos clubbers da Ouro Fino, pelos manos da zona leste, pelas patricinhas da Barra, pelos anoraks do Guará, pelo pessoal que come Xis Coração na Lancheria. "Quem não gosta de Blemish, bom sujeito não é", dizia o jargão de uma famosa cadeia de rádios nacional. E a banda embarcou para uma tournée européia, que seria seguida por uma americana, uma asiática e a grande consagração, na turnê brasileira, com 35 datas. E por todo o Brasil, pipocavam bandas noise, que tentavam imitar o quarteto ao máximo. Usavam os mesmos pedais de distorção, faziam o mesmo estilo de som, tomavam a mesma marca de cerveja e mandavam suas demos para o mesmo Luciano Vianna. Soterrado no meio de tanto cd-r, o dono da London Burning colocou em seu site um aviso, pedindo pra que parassem de lhe enviar demos, pois ele não estava preparado pra mexer com uma cena indie-noise tão boa. Dois dias depois, foi internado, com estafa. No entanto, nenhuma das novas bandas ("Brasil, o país do noise", derretia-se o NME) possuía a qualidade sonora dos agora astros internacionais do Blemish. E mais gente ficou querendo saber qual era o segredo da banda. Certo dia, ouviu-se um diálogo estranho numa festa do DJ Club: "- Meu, não sei de onde o Blemish tira essas músicas. Não faço idéia. E você?" "- Não sei também. Mas Bicho, desencana dessas idéias. O importante é que a banda é boa. E meu cabelo, tá bom?" "- Tá legal, tá legal. Só que esse sucesso todo do Blemish me deprime." "- Ah, relaxa. Bem melhor do que se tocasse Jamiroquai nas rádios, não acha?" "- É, pelo menos isso, vai." E com o passar dos tempos, a curiosidade em torno do segredo do Blemish aumentava. Até que os rapazes, dez meses depois, voltaram triunfantes da excursão internacional. Depois de finda a tournée brasileira, iriam gravar o novo disco e tirar férias antes do segundo lançamento. Nos estúdios, em São Paulo, nada parecia ter mudado desde a descoberta daquela portinhola. Havia apenas alguns zineiros e amigos, pra cobrir os primeiros dias de atividade. Muito solícitos, Luís Fernando e Daniel concediam entrevistas, enquanto Ivan e Tito saíam pra comprar vodca e Fanta laranja. Até que, num belo dia, para fazer contato com Kevin Shields novamente, a banda pediu pra que todos os curiosos se retirassem. Mas um deles se escondeu embaixo da mesa de controle central e ficou espiando o quarteto entrar no mundo do guitarrista do My Bloody Valentine. Ouviu uma conversa sobre "vamos voltar ao que nos inspira" e concluiu, manhosamente: "Ah é, é?" O curioso esperou uma hora inteira e nada da banda voltar. Decidiu entrar por conta própria na portinhola e também se embasbacou com tudo aquilo. Tentou chamar a atenção de Kevin Shields, mas não conseguia. De tanto pular, o máximo que conseguiu foi fazer o guitar hero regurgitar seu almoço à base de peixe, batatas fritas e figos. E quarenta e oito minutos e trinta e oito segundos depois de entrar, foi expelido de seu cérebro, indo parar na porta da Velvet. Perguntou do lançamento do Caetano Veloso, e foi sumariamente expulso pelo dono da loja, André Fiori. Depois, a banda voltou ao estúdio, para continuar as gravações, e percebeu cinco manchas cor-de-rosa no chão. Cinco? Mas foram apenas quatro pessoas que entraram... "- Ivan, você tá comendo muita feijoada, tá deixando duas manchas no chão!" - disse Luís Fernando, tomando um hi-fi. "- Não, cara. Eu tô de boa, nem comi nada hoje" - respondeu. "- Se não foi você... foi algum intruso. Quem pode ter entrado aqui?" - Tito resmungava. "- Eu." - e uma quinta pessoa apareceu no estúdio. "- O cara do Lo-Fi Zine!" - disseram, em uníssono, os quatro Blemishes. "- Isso mesmo. E dessa vez a verdade vai ser dita no MEU zine." - e saiu, correndo. A banda ainda tentou alcançá-lo, mas era tarde. --------------------- capítulo 5 Três dias depois, um telefonema às oito da manhã acordou Daniel: "- Daniel, do Blemish?" "- Uuaaahhmmmmm... é, sou eu. Quem tá falando?" "- Aqui é Rodrigo Lariú. Tudo bem?" "- Fala, seu Lariú! Tudo certo, e contigo?" "- Vai ficar melhor agora. Escuta, você TEM que me levar até o cérebro do Kevin Shields. Eu sou muito fã do cara." "- Hein?" "- Isso mesmo. Pago qualquer coisa." "- Como você sabe da passagem?" "- Não leu o Lo-Fi Zine?" "- Não. Aquele coxinha publicou isso?" "- Publicou." "- MALDITO!" - e Daniel bateu o telefone na cara de Lariú. Levantou-se e foi checar seu email particular. 285 novas mensagens, todas de jornalistas do Brasil e do Reino Unido pedindo credenciais pra entrar na cabeça de Kevin Shields. Daniel não sabia o que fazer. Ligou para Luciano Vianna. O patrão tinha que saber o que fazer: "- Então, Luciano, é isso. Graças ao cara do Lo-Fi, a coisa tá enorme." "- Porra bicho, tu nem pra me dizer que era esse o segredo? Caralho, que bizarro..." "- É, mas agora você precisa me ajudar." "- Tá, tá. Já sei o que fazer." "- O quê?" "- Entrevista coletiva." "- Você acha que isso resolve? Tá ficando louco?" "- Se a entrevista for realizada na cabeça do Kevin, resolve." Então, Daniel respondeu a todos os emails de uma vez graças a um software de mala direta da Neutral Milk Mob Enterprises (aqui sim cabe o merchandising), que você acha em http://www.timekiller.com/ . No email, dizia o guitarrista: "Se quiserem conhecer toda a verdade por trás da nossa banda e nossos vínculos com Kevin Shields, por favor, venham ordeiramente aos nossos estúdios na próxima quarta-feira, às 2 da tarde, horário de Londres, e toda a verdade será revelada. Abraço, Daniel." Na hora e data marcada, todos estavam lá, e foram entrando, um por um, na portinhola que levava ao cérebro do angustiado e recluso rei do noise inglês. Ao chegar lá, espantados, não fizeram nenhuma pergunta à banda, pois a Matrix de Kevin Shields tinha a todos, e foi esperar que quarenta e oito minutos e trinta e oito segundos se passassem. Embasbacados, os jornalistas ficaram com um zunido de abelha nos ouvidos por dias e produziram matérias antológicas falando sobre tudo, menos sobre o segredo do Blemish e a tal portinhola. Depois disso, através de uma denúncia anônima do fanzine Scream & Yell (ops! falei sem querer!), o cara do Lo-Fi Zine foi preso, acusado de fraude, calúnia, difamação e dano moral e, numa segunda reunião dos jornalistas, espantados não só com as vendagens do Blemish e das outras bandas noise brasileiras, mas também com as vendagens das edições brasileiras do My Bloody Valentine (Isn't anything chegou a liderar as paradas nacionais por quatro meses), decidiram que todos negariam a idéia da passagem para a cabeça de Kevin Shields, que seria trancada a cadeado e só o próprio guitar hero poderia autorizar a entrada de alguém em seu cérebro. E ainda o trariam ao Brasil. Pra fazer o quê, ninguém sabia. Só se sabia que Kevin devia saber toda a verdade. E se rolasse uma turnê de retorno do My Bloody Valentine, melhor ainda. Ao ver o mito desembarcando no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, Rodrigo Lariú não se conteve e gritou: "Kevin Shields para presidente!", no que foi seguido de todos os jornalistas. E, seis meses depois, esse americano criado na Irlanda era empossado como o novo presidente do Brasil. FIM (Isso se o My Bloody Valentine não lançar outro disco...) ***** "Se algum dia, do nada, você estiver caminhando pela rua e sentir um golpe forte no olho, não pense duas vezes: serei eu te cobrindo de porrada" - Marcelo Costa, filósofo esquentadinho |
Rotação 24 horas Olha só: eu preciso de um minuto de sua atenção. Porque tenho uma coisa para te contar que merece muita concentração. É algo que eu tenho que dividir com você... Por Mario Marques London Arena
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Volume
Olhar de Cachorro
Velha Debaixo da Cama
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